Você olha para mim e não me enxerga

No começo da oitava temporada de Doctor Who, o Doutor está se recuperando mentalmente de sua última regeneração. Depois de três atores relativamente jovens e atraentes, sendo o imediatamente anterior, Matt Smith, o mais jovem a já ter assumido o papel, ele aparece com o rosto de Peter Capaldi: um homem mais velho, grisalho, de sobrancelhas especialmente aterrorizantes e que, mesmo sendo atraente dentro daquilo que um velho pode ser, fez a série sentir que era preciso se explicar metalinguisticamente ao público que aquele ainda era o mesmo personagem. Quem ele é, o que o define como pessoa, se ainda é possível reconhecê-lo como o mesmo homem… seria ele um homem bom?

Clara, sua companheira de viagem, tem dificuldade de olhar para ele e reconhecer nele a mesma pessoa com quem estava até alguns momentos antes. Ela entende o conceito de regeneração, já viu o rosto de outros Doutores e compreende racionalmente o que houve… mas não consegue aceitar que o homem por quem tinha afeto foi “substituído” por aquele velho que agora está na sua frente.

Aqui, ela não representa apenas a si mesma: o público também perdeu Matt Smith e precisa digerir um protagonista mais velho, mais sisudo e que não parece interessado em continuar reproduzindo a mesma versão linha do personagem que tínhamos até então. Em determinado momento, o Doutor comenta o modo como ela o enxerga e diz que ela não consegue vê-lo. Ela olha para ele, mas não o vê.

Talvez essa seja uma das coisas que mais me dói nas interações com outras pessoas: tentar entender a lacuna entre quem eu sou e quem a pessoa interagindo comigo acha que eu sou. Como sou enxergado, o que as pessoas atribuem às minhas ações e até que ponto conseguem entender aquilo que, para mim, parece ser óbvio.

Por incrível que pareça, principalmente para quem já discutiu comigo ou acha que eu não tenho nenhum espaço interno reservado para a possibilidade de estar errado, eu consigo conviver relativamente bem com discordâncias. Posso achar que a pessoa está errada, posso discutir por tempo demais, elaborar meu raciocínio até que todos os envolvidos se arrependam de ter entrado na conversa, mas não preciso que as pessoas concordem comigo para continuar gostando delas ou reconhecer que chegaram a uma conclusão correta. O que me desorganiza mesmo é não ser entendido.

Uma frase neutra ser recebida com maldade, uma piada ser vista como uma tentativa intencional de ferir, talvez uma explicação ser lida como manipulação dos fatos ou uma distração como indiferença. A pessoa não achar que eu fiz alguma coisa sem querer ou por pura inaptidão, mas acreditar realmente que agi deliberadamente.

As pessoas têm acesso ao que eu faço, não ao que eu pretendia fazer. Ainda assim, é meio cansativo precisar defender tantas coisas que faço ou sou, principalmente porque isso criou um estado constante de vigilância para não errar. Talvez por isso eu me explique tanto: conforme fui percebendo, ao longo da vida, que as pessoas preenchiam as lacunas das minhas falas e ações com interpretações muito diferentes daquelas que eu pretendia, passei a contextualizar tudo, fazer ressalvas, antecipar objeções e tentar cobrir todas as bases antes que alguém precisasse dar um salto muito grande para decidir o que eu queria dizer.

Tudo precisa ser justificado, todas as bases cobertas para que ninguém contradiga aquilo que eu sei que estou sentindo sobre alguma coisa. Se, ao dizer uma palavra, percebo que ela pode ser interpretada de duas formas, imediatamente sinto necessidade de esclarecer qual dos significados estou usando, ainda que seja óbvio. Se faço uma brincadeira que pode soar ofensiva, já incluo alguma explicação indicando o contexto em que deveria ser entendida (o que claramente ajuda muito na fluidez de uma piada).

Quanto mais informações ofereço, menor deveria ser a distância entre o que pensei e aquilo que a pessoa vai entender… né?

Só que a maioria das pessoas não tem paciência para acompanhar meus raciocínios enquanto eu os estruturo. Começo uma frase, abro um parêntese, percebo que o parêntese depende de outra informação, volto para acrescentá-la, faço uma ressalva para que ninguém ache que estou dizendo algo mais amplo do que realmente estou e, quando dou sorte, finalmente chego ao ponto. Na maioria das vezes, as pessoas me interromperam a cada curva ou simplesmente desistiram de acompanhar antes que eu terminasse.

Na prática, quanto mais tento evitar mal-entendidos, pior pode ficar a disposição das pessoas em acompanhar ou até querer entender o que estou dizendo. Isso conversa (kkkkk) diretamente com uma coisa que eu já entendi e estou tentando trabalhar: aceitar que minhas habilidades sociais são ruins mesmo e tentar melhorá-las. Provavelmente não sou apenas um pobre coitado cercado por pessoas mentalmente incapazes de interpretar aquilo que digo. Provavelmente falo num tom inadequado, faço piadas em momentos ruins, pareço distante, demoro a perceber o que a outra pessoa precisa ou continuo desenvolvendo uma ideia depois que ela claramente já se encerrou na conversa.

Ao mesmo tempo, as pessoas recebem, sim, aquilo que digo a partir de suas próprias capacidades, experiências, expectativas e disposições. Posso melhorar a maneira como me comunico, mas não consigo controlar completamente aquilo que outra pessoa está apta a entender naquele momento. Alguém acostumado a lidar com agressividade talvez enxergue agressividade até onde ela não existe. Quem está cansado pode não ter energia para baixar o codec de contextualização necessário para entender por que fiz ou deixei de fazer alguma coisa. Alguém que já construiu determinada imagem de mim vai inevitavelmente ouvir o que digo dela e não de mim. E, às vezes, a pessoa pode simplesmente não estar disposta a aceitar aquilo que tenho para oferecer (seja lá o que for).

Grande parte de não me sentir enxergado também vem do fato de que não consigo ser suficientemente vulnerável. Por vezes sou indisponível, distante e seletivo com aquilo que demonstro aos outros. É mais seguro deixar que as pessoas conheçam versões filtradas de mim, com aquilo que considero desejável ou socialmente aceitável, enquanto outras partes ficam guardadas em algum lugar onde não precisam ser explicadas. Não dá para reclamar que alguém não encontrou uma coisa que eu provavelmente contribuí para tornar difícil de encontrar, né?

Por isso é até pior quando acontece o contrário, quando é alguém para quem eu me abri e me mostrei de maneira que não costumo mostrar. Existe um custo em revelar essas partes que eu normalmente escondo, falar sobre meus medos ridículos, admitir as necessidades que eu preferia não ter e permitir que outras pessoas adentrem rincões da minha cabeça em que sou menos controlado. Passar por tudo isso e, ainda assim, ser lido das piores maneiras possíveis faz parecer que todo esse esforço, que não me é natural e não vem com facilidade, seja muito penoso.

Não porque ser vulnerável dê a alguém a obrigação de concordar comigo ou me absolva de qualquer coisa, eu só tenho essa expectativa meio pueril de que, se eu me mostrar o suficiente, vou ser entendido como uma pessoa. Talvez até uma pessoa normal. Complicada, irritante, muitas vezes errada, mas ainda reconhecível como alguém que tenta fazer seu melhor dentro das limitações que tem. Isso me faz sofrer por muito por antecipação. Imagino discussões, preparo contra-argumentos, penso no que a pessoa pode ter entendido, no que deveria ter dito de outra maneira e, quando tudo passa, reconstruo a interação procurando onde falhei.

Reside aí uma ironia particularmente engraçada: o que mais me machuca é que as pessoas preencham as lacunas sobre mim com a pior interpretação possível enquanto faço basicamente a mesma coisa quando não tenho acesso ao que elas pensam sobre mim. A hipervigilância tenta me proteger da leitura errada dos outros produzindo leituras igualmente inventadas sobre eles. Basicamente um esquema de pirâmide de ansiedade.

Não tem como comunicação ser um processo mecânico de pura transmissão de dados. Eu literalmente estudei essa joça, né? Mesmo assim, continuo agindo como se uma quantidade suficiente de contexto pudesse eliminar todos os ruídos. Posso tentar melhorar a maneira como falo, escutar mais, reconhecer quando meu tom não corresponde ao que queria comunicar e parar de exigir que os outros acompanhem cada etapa do meu raciocínio. Isso provavelmente reduziria muitos dos problemas pelos quais passo. Ainda assim, nada disso garante que eu vá ser recebido sempre com curiosidade, paciência ou boa-fé.

Também vou falhar em compreender os outros, por mais que goste de imaginar que minha capacidade de analisar situações me coloca acima desse tipo de erro bastante comum. Enlouquecer tentando contornar todas essas variáveis não melhora muito a comunicação. Só me deixa mais cansado antes mesmo de ela começar. E isso conversa diretamente com uma das tarefas mais difíceis que tenho tentado cumprir: não ser refém do outro.

Durante muito tempo, tratei a compreensão alheia sobre mim como essa medida de validação sobre quem sou. Se alguém próximo entendesse minhas intenções, reconhecesse meus esforços e dissesse as palavras certas, talvez eu conseguisse acreditar que não sou tão difícil, tão ruim ou tão incompatível com a convivência quanto às vezes pareço. Só que eu também sou responsável por decidir qual validação conta.

Se alguém me elogia de maneira menos específica, posso interpretar como uma simples gentileza. Se reconhece uma qualidade que não considero importante naquele momento, parece irrelevante. Se vem da pessoa errada, não conta. Se não usa exatamente a linguagem correspondente à necessidade que estou sentindo, talvez passe direto ou nem entre. São critérios móveis que garantem que quase nada seja suficiente.

Talvez eu queira que outra pessoa revele uma versão de mim que eu ainda estou procurando. Que atravesse minhas contradições, ignore tudo o que faço de errado, encontre boas intenções sempre e me mostre um reflexo que finalmente corresponda à versão perfeita que quero alcançar de mim mesmo. É muita responsabilidade para pessoas que estão trabalhando 40 horas por semana, ou mais, não se ofereceram para carregar esse peso e também estão ocupadas cuidando das próprias vidas.

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