Você lembra de mim?

Durante muito tempo, eu me neguei a ouvir a banda O Terno por odiar o sotaque paulistano. Mesmo que muita gente dissesse que eu provavelmente iria gostar, eu evitava a agonia fônica de ouvir os érres tépes do Tim Bernardes. Mas, de uns tempos pra cá, a música Atrás/Além passou a aparecer bastante em edits de anime. Principalmente de Frieren, quase sempre envolvendo a Frieren lembrando do Himmel, da vida banal à qual ela não deu importância quando podia e não entendia direito enquanto estava acontecendo. Os sorrisos, as conversas, as piadas bobas. De repente, dez anos viraram uma parte enorme da vida de uma elfa de mais de mil anos e ela não podia mais voltar atrás.

Ela chora lamentando porque não prestou mais atenção, porque poderia saber mais sobre ele e os companheiros que estiveram juntos naquela jornada. Porque, no fim, realmente a vida humana é curta demais para conviver com ela e, irremediavelmente, conhecê-los de verdade é aceitar que um dia só vai sobrar a lembrança (e que um dia essa lembrança vai doer).

Geralmente os vídeos focam só na primeira estrofe da música, parando em “fui feliz” ou “quem sabe um dia eu te encontro por aí“, mostrando alguma das estátuas do Himmel. Mas, em outros animes, isso costuma ir além, quando ele pergunta repetidamente: “você lembra de mim?“.

Acho que esse é um dos meus maiores medos. Mesmo, em certa medida, fazendo isso com as pessoas.

O TDAH tem um efeito chato na forma como eu me relaciono com memória. Às vezes passo semanas sem pensar em pessoas de quem gosto muito. Elas simplesmente deixam de ocupar espaço na minha cabeça por um tempo. Até que alguma coisa acontece (uma música, um lugar, uma foto, uma conversa parecida) e elas voltam. E eu penso “nossa, preciso falar com fulano”. É uma coisa meio desconfortável que vez ou outra me obriga a confrontar a ideia de que o de outras pessoas fazem exatamente a mesma coisa comigo.

Acho que é porque esquecer, a ponto de deixar de ser eu mesmo, também é um dos meus grandes medos. Meu avô paterno teve demência no fim da vida e, na última vez que conversamos, já não lembrava mais de mim. Como já escrevi antes, a minha identidade é muito pautada no outro. A minha humanidade é validada pela ideia que o outro tem de mim, eu mesmo não me basto. Se só eu lembro, aquilo existiu mesmo? O quão válida é a minha existência se não há testemunhas para validá-la?

Na última vez que visitei o apartamento para onde ela se mudou, nossos (agora dela) gatos não deram a menor bola para mim. Não sei se já fazia um mês que tinham se mudado, mas eles não reagiram com o mínimo de interesse ao fato de que eu estava ali. Eu que fui buscar os dois nos lugares de onde vieram, que dei comida, que dei carinho, que dormia com eles quase todas as noites… naquele momento, eu era só mais uma visita.

Acho que é por isso que o fim de um relacionamento continua parecendo tão estranho por algum tempo. É muito difícil conciliar essa imagem de uma vida da qual já fui parte com a ideia de que tudo vai continuar funcionando perfeitamente sem mim, como se eu jamais tivesse sido necessário ali.

Na nossa última conversa, ela comentou para eu tomar cuidado para não acabar caindo na onda desses influenciadores masculinistas, tipo Andrew Tate. Não sei se falou aquilo com raiva, se realmente enxergou essa possibilidade ou se era só um comentário jogado numa conversa difícil. Mas foi o estalo de que eu precisava.

Eu ainda estava preso à ideia de que conseguiria validar a minha humanidade pela forma como ela me enxergava. Quando ouvi aquilo, percebi que talvez estivesse procurando justamente uma confirmação que ela já não podia me dar: a minha versão que existia na cabeça dela talvez não fosse mais eu. Talvez nunca tivesse sido, sei lá. Também não acho que seja possível saber a intenção de alguém numa frase dessas. Se ninguém para de mudar enquanto está num relacionamento, que dirá depois dele? Nunca vamos saber exatamente qual é a imagem que ficou na cabeça do outro.

Quando pessoas famosas morrem, elas passam a existir na melhor forma que já existiram. A menos que tenham cometido atrocidades ao longo da vida, a memória coletiva faz uma espécie de curadoria afetiva: ficam os grandes trabalhos, as boas entrevistas, os momentos mais humanos. O resto vai sendo deixado de lado e quem insiste em lembrar das partes ruins é visto como chato.

Com quem continua vivo talvez aconteça o contrário. Como a pessoa ainda pode errar mais, talvez esse espaço de carinho seja pedir demais. Afinal, se ela era tão boa assim, por que você a deixou? Imaginar que, enquanto continuo mudando, aprendendo, melhorando, errando de formas novas e tentando errar um pouco menos, a versão de mim que existe na cabeça das pessoas independe completamente dessas coisas me assusta.

Sim, eu sei. Inclusive estou pagando um psicólogo justamente para tentar parar de pensar desse jeito. Ele provavelmente concordaria que essa preocupação não faz muito sentido (infelizmente, minha cabeça ainda não chegou nesse ponto).

Mas e quando é uma pessoa importante? Como eu vou dizer que não ligo para a maneira como sou lembrado?

No fim de A Canção de Aquiles, Pátroclo fica preso à própria tumba. Aquiles havia pedido que suas cinzas fossem misturadas às dele, mas o túmulo acabou recebendo apenas o nome do pelida. Sem nome, sem papel reconhecido, sem identidade, Pátroclo não consegue seguir para o Hades.

Ele vê Tétis visitar o túmulo todos os dias e ressente a deusa por ter condenado Aquiles à mortalidade, por não tê-lo tornado imortal como ela pretendia. Agora, pensa ele, as pessoas só lembrariam do lado sombrio do amado: das mortes, da carnificina, do guerreiro cruel, quando havia muito mais pelo que lembrar. Ela o surpreende e pergunta se ele teria outras memórias sobre Aquiles.

Ele responde que é feito de memórias.

Então narra todas as amenidades, as delicadezas e as belezas que viveu ao lado dele. Satisfeita, Tétis grava o nome de Pátroclo no túmulo e permite que ele atravesse. Esse final é uma mudança importante em relação ao mito original. A autora altera essa parte para reconhecer textualmente que aquelas duas vidas não podiam ser separadas e, de certa forma, dar a Pátroclo o seu papel que havia sido negado pela história: o de amante.

Não ter uma validação de como existimos, de quem eu fui, quem sou e quem ainda posso ser é uma sensação muito estranha.

Será que existe espaço para que eu seja lembrado como Aquiles, com tudo o que já fiz de humano e bonito ou vou acabar preso à terra, amargando a ideia de que nunca fui exatamente o que achava que fui? Não sei. Talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar: não temos como controlar as lembranças que outras pessoas guardam da gente.

Eu sou feito de memórias. O máximo que consigo fazer, daqui para frente, é continuar construindo algumas novas e contar as antigas na esperança de que, um dia, eu consiga validar por conta própria quem fui, quem sou e o que vivi.

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