So I won’t say it at all

Em Futile Devices, o Sufjan Stevens canta sobre uma domesticidade contida, com imagens de sentimentos pequenos que formam o amor existindo no dia a dia. O eu lírico se descreve caindo no sono no sofá do amado, observando (e celebrando) as pequenas ações, notando os detalhes, os vendo como preciosos. Até que, em determinado momento, ele diz que falaria que ama aquele homem, mas dizer em voz alta é difícil, então não vai dizer e não vai ficar por muito tempo. O objeto de desejo que o deixa fascinado, que lhe traz a vida de que ele sempre precisou, não vai ouvir “eu te amo“. A frase aparece só como pensamento, um refrão que nunca vira conversa. No fim, ele decide que palavras são dispositivos inúteis para dizer o que ele precisa dizer.

Infelizmente, eu entendo a ideia.

Durante muito tempo, acabei fazendo isso com o amor que eu vivi. Se estava ali, se ficava, se voltava para casa, se fazia planos, se continuava tentando, era óbvio que aquilo deveria comunicar alguma coisa. Na minha cabeça, comunicava. Mas ninguém mora dentro da minha cabeça, ao menos não literalmente, e ninguém sabe ler mentes.

No meu trabalho, na comunicação, existe uma máxima muito verdadeira: o óbvio também precisa ser dito. Se uma informação pode ser entendida do jeito errado, alguém vai entender do jeito errado. Se uma instrução permite três caminhos, alguém vai escolher o quarto, provavelmente o pior possível. O receptor (quase) nunca está errado por não adivinhar o que você quis dizer.

O problema é que, no meu antigo relacionamento, eu conduzi as coisas como se o amor fosse óbvio. Acho que não disse que amava minha ex mais de cinco vezes ao longo de quase dez anos. Provavelmente nem isso, e contando a que eu disse no fim (o que talvez torne tudo pior).

As vezes em que eu disse foram quase sempre em algum tipo de torpor: bêbado, sonolento, no meio de um sexo especialmente apaixonado, naqueles estados em que o corpo fala antes de você raciocinar. Às vezes escapava, às vezes ela perguntava o que eu tinha dito e eu desconversava, como se amar a pessoa com quem eu dividia a vida fosse algo de que eu tivesse que ter vergonha, uma coisa errada que eu tinha deixado escapar.

E isso veio de um medo muito bobo: no meu penúltimo relacionamento, a gente dizia “eu te amo” tantas vezes por dia que, perto do fim, aquilo começou a soar estranho. Como se a frase tivesse perdido o peso de tanto ser repetida. Em algum lugar da minha cabeça, concluí que queria evitar esse momento a qualquer custo.

Enquanto eu continuava não dizendo, aquilo poderia continuar existindo como uma coisa nossa, quase abstrata, um sentimento que sequer tinha palavras para existir. Pelo menos era assim que eu entendia. Obviamente, isso abriu um espaço enorme para dúvida, insegurança e todo tipo de problema que foi nos minando ao longo dos anos.

É engraçado como uma verdade consegue se parecer tanto com uma mentira, quanto mais tempo sem dizer, mais difícil foi ficando. Parecia injustificável ter passado quatro, cinco, seis anos sem falar aquilo e simplesmente começar a falar do nada. Todos os cenários conspiravam para que eu continuasse empurrando o problema com a barriga, que é uma coisa que eu faço muito bem. Quando, olhando agora, qualquer momento teria sido um bom momento.

Hoje acho que isso foi quase uma origem semântica dos nossos problemas. Não acho que tudo teria sido resolvido com meia dúzia de “eu te amo”, claro. Relações não acabam pela falta de uma frase, nem se sustentam apenas porque ela existe. Mas acho que eu nos privei de uma coisa muito básica: se não havia espaço para dizer que eu a amava, o que exatamente podia ser dito? Qual era o tamanho real da conversa possível entre duas pessoas que não podiam verbalizar uma coisa dada como mínima em qualquer relação?

Eu precisava me sentir desejado fisicamente, procurado, tocado, confirmado. Queria provas de que o interesse ainda existia, era o nosso problema mais recorrente. Mas fico pensando no que significava para ela estar numa relação em que uma coisa tão básica quanto ouvir “eu te amo” simplesmente não vinha. Ter de inferir amor o tempo inteiro e, na falta da certeza, apenas acreditar.

E isso aparecia em outras coisas também: há alguns anos, ela decidiu cortar o cabelo bem curto. Antes de marcar horário no salão, perguntou o que eu achava. Eu disse que provavelmente não gostaria muito e ela cortou mesmo assim.

Nunca disse que tinha achado horrível, mesmo que tenha ficado triste pela demora do cabelo em crescer. Mas nunca elogiei. Sempre tratei elogios como algo extremamente verdadeiro: eu só podia elogiar aquilo que correspondesse exatamente ao que eu estava sentindo e, como me negava a sentir, elogiei cada vez menos ao longo dos anos. Hoje vejo que era só mais uma da lista de intermináveis limitações que tenho.

Olhando agora, talvez nem precisasse ter elogiado o cabelo.

Poderia ter elogiado a felicidade dela de finalmente fazer uma coisa que queria há tempos ou a coragem de experimentar uma versão diferente de si mesma. Eu roubei dela a empolgação de poder chegar em casa e dividir aquilo comigo, de todas as coisas verdadeiras acontecendo naquela cena e fiquei preso justamente na menos importante: eu.

Eu meio que fui fazendo com o afeto a mesma coisa que fazia com os elogios: toda demonstração passava por uma validação de sinceridade infalível. Se eu não conseguisse sentir exatamente o que diria, exatamente com aquelas palavras e naquele momento, era melhor só não dizer nada. O problema é que o silêncio também comunica.

Dá vergonha de mim mesmo: eu queria que ela me dissesse, com o corpo, que me amava, mas não conseguia dizer, com palavras, que a amava.

Ao longo dos anos, eu relutei muito à ideia de fazer terapia. Já tinha tentado algumas vezes no passado, mas não tinha sentido que nenhuma delas tinha me ajudado de verdade e fui tratando isso como uma prova de que talvez terapia não fosse para mim. É meio como aquelas pessoas que sabem que provavelmente têm mais doenças do que gostariam de descobrir e, justamente por isso, preferem não fazer exames. Você continua sentindo os sintomas, continua funcionando pior, continua piorando a vida de quem mora com você, mas pelo menos não precisa reorganizar a própria identidade ao redor da informação oficial de que tem um problema.

Decidi mudar isso este ano, provavelmente tarde demais para qualquer conserto dentro daquela relação, já que minha tentativa de resolver as coisas de forma mais definitiva virou, na prática, o término. Enquanto eu adiava ficar bem comigo mesmo, também adiava ficar bem com ela.

Eu me enganei, por muitos anos, que só quem precisava se tratar era ela. Eram os traumas dela que nos atrapalhavam, os meus estavam perfeitamente controlados (claro que não). Cada coisa que eu não encarava em mim voltava para dentro da relação de algum jeito: às vezes me calava, às vezes cobrava em excesso, às vezes era grosseiro e, às vezes, conseguia ter uma incapacidade quase infantil de dizer que algo tinha me magoado antes de transformar aquilo em ressentimento.

Tem uma música do Rubel que sempre me pega quando ele canta: “eu sei por que eu fiz assim, eu tive medo de você“.

Eu poderia apontar vários medos. Medo de parecer ridículo. Medo de começar uma conversa que eu não saberia terminar. Medo de ela pedir alguma coisa simples para qualquer adulto funcional e eu descobrir, naquele momento, que não teria como entregar. Medo de que dizer “eu te amo” significasse que eu precisaria ser uma pessoa diferente.

Mas o que mais dói hoje é menos complicado do que isso: em vários momentos, eu poderia ter sido melhor. Não perfeito. Não um homem hipotético que faz terapia há anos, bebe quatro litros de água por dia e consegue dizer o que sente de maneira plena. Só um pouco melhor. E na maioria das vezes eu não fui. Às vezes por incapacidade real (eu sou autista), mas também por displicência, porque era mais fácil deixar para depois, ou por um despeito que virava maldade, como forma de “descontar” alguma insatisfação.

Ficaram milhares de “eu te amo” entalados na garganta, agora inúteis e sem ter para onde ir. Eu poderia ter dito tantas vezes. Era tão simples. Não era como se eu precisasse mentir, bastava tirar aquilo da posição de objeto constrangido, mal administrado, bloqueado pelo emocional de um homem incapaz. Acaba que esses sentimentos não falados não informam ninguém, eles são virtualmente indistinguíveis da ausência.

E o momento que eu tanto temia nunca chegou.

Eu tinha medo de que uma hora deixasse de fazer sentido dizer “eu te amo”, que chegasse um ponto em que a frase soasse falsa, fora de lugar, mentirosa. Mas, no fim, mesmo com todos os problemas “irreconciliáveis”, mesmo quando a relação já estava em cuidados paliativos e talvez nós dois soubéssemos disso de algum jeito, não consigo olhar para trás e dizer que tinha deixado de amá-la.

Se essas palavras tivessem aparecido antes, talvez pudessem ter funcionado como cuidado. Não seria solução, milagre ou remendo para tudo que estava quebrado, apenas uma confirmação pra ela não precisar passar tantos anos tentando adivinhar o que acontecia dentro da minha cabeça.

Quando finalmente apareceu, já era tarde demais: o último “eu te amo” que ela ouviu de mim nem foi um “eu te amo”. Foi uma composição indireta de palavras que deixavam a entender que eu ainda a amava. Horrível. É claro que palavras são dispositivos inúteis quando tentam carregar coisas grandes demais, dizer “eu te amo” nunca daria conta de dez anos de relação. Mas o contrário também é verdade: a insuficiência das palavras não valida o silêncio, o óbvio também precisa ser dito.

No trabalho, isso evita ruído, retrabalho e garante que a mensagem chegue a quem precisava chegar. Na vida, talvez evite que uma pessoa passe anos tentando descobrir se aquilo que parecia amor era realmente amor ou só uma convivência longa demais para ser interrompida sem dor. Não acho que dizer “eu te amo” mais vezes teria salvado a nossa relação, mas acho que não dizer produziu muita coisa ruim ao longo dos anos.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando a gente olha para trás: as partes de nós que escolhemos não encarar nunca ficam só com a gente. Elas aparecem numa risada inapropriada, numa resposta atravessada, na conversa que fica para depois de novo, num “eu te amo” que não é dito. Aos poucos, passam a fazer parte da relação tanto quanto as partes de nós que gostaríamos de oferecer.

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