Oráculos são uma forma de autoconhecimento. Eu, por exemplo, costumo recorrer ao site YesNoButton.com quando estou em dúvida: penso na pergunta, aperto o botão e o espírito milenar que habita essa belíssima página responde com “sim” ou “não”. Para as que não me afetam muito, costumo aceitar a orientação com tranquilidade, tirar logo da frente. Já quando tenho uma opinião formada, só fico satisfeito quando o botão concorda comigo… caso contrário, ignoro sumariamente e faço o que queria desde o início. E funciona sempre.
E aí é que tá: eu me considero uma pessoa cética. Gosto de conduzir decisões práticas por uma lógica pretensamente científica, que orienta como interajo com o mundo e, principalmente, como espero que o mundo interaja comigo. Explicações concretas para o que pode ser explicado, tentando sempre entender as relações de causa e efeito, fugindo de conclusões apressadas. Antes de acreditar em alguma coisa, pergunto de onde tiraram aquela informação.
Em tese, não acredito que o universo tem um plano para mim, que tudo acontece por uma razão maior ou que existe algo superior distribuindo recompensas e punições segundo alguma lógica própria (talvez, pensando bem, eu mesmo exerça esse papel comigo e com as pessoas da minha vida). Na maior parte do tempo, só aceito que as coisas acontecem porque aconteceram. O sentido vem depois, ao organizar o que vivi numa narrativa compatível com aquilo que acredito ser.
Apesar disso, guio uma parcela surpreendentemente grande da minha vida por coincidências que escolho tratar como sinais.
Claro que soa contraditório, só que o cérebro humano é muito bom em encontrar padrões, estabelecer conexões entre coisas que talvez não tenham nenhuma e dar importância a coincidências que confirmam o que já estávamos pensando. Se prestarmos atenção suficiente ao detalhes, em algum momento, encontramos algo plausível.
E aí é que está: atribuir importância a essas coincidências dá à vida elementos narrativos desejáveis, recorrentes. É uma forma de ser editor colaborativo da própria história, acolhendo o material que o mundo oferece e selecionando aquilo que se alinha ao que queremos enxergar. No fim das contas, a interpretação é minha, não precisei inventar tudo do zero.
Algumas coincidências também aparecem num momento específico e me ajudam a processar questões que, sem elas, talvez continuassem paradas dentro de mim. O apartamento que comprei, por exemplo, é o 404, que era o número do apartamento da minha primeira namorada. Também é o código de erro do HTTP usado para indicar que uma página não foi encontrada, o que, de certa forma, combina com meu estado atual.
Estou há meses morando na casa da minha irmã, com a maior parte das minhas coisas guardada, soterrada de pó no meio da obra ou entulhando parte do escritório do apartamento onde ela vive com meu cunhado. Espero um lugar que ainda não está pronto para ser ocupado e circulo por espaços aos quais raramente sinto pertencer completamente (não encontrado).
Claro que não escolhi o imóvel apenas pelo número, já procurava algo há alguns meses e aquele foi o lugar que pareceu melhor se encaixar na minha realidade de preço, localização, tamanho, financiamento e condições do prédio, todas aquelas coisas que ajudam alguém a decidir assumir uma dívida que vai nos acompanhar por boa parte da vida adulta. Também ajuda ter o Vértice subindo a rua e uma pamonharia na esquina.
O apartamento continuaria com as mesmas qualidades e os mesmos defeitos se fosse qualquer outra unidade do prédio. Inclusive, talvez eu gostasse mais se ficasse num andar mais alto. Ainda assim, ver o 404 na porta criou algum sentido para a coisa toda.
Talvez tenha sido só uma piada comigo mesmo: a ideia de que o lugar onde pretendo reorganizar minha vida tivesse justamente o número associado a algo que não pôde ser encontrado ou a familiaridade da lembrança do apartamento da minha primeira namorada (alguma coisa no meio do caminho, provavelmente).
Seja qual for a explicação, aquele número específico fez o imóvel parecer um pouco mais atraente antes que ele se tornasse meu e isso é recorrente.
Quando o George morreu, por exemplo, fiquei completamente desnorteado e a vida parecia incompleta. A Sabrina, minha outra gata, claramente tinha mais afinidade com minha ex e comecei a sentir que voltava todos os dias para uma casa onde ninguém me esperava.
Pouco tempo depois, comecei a procurar outro gato para adotar sem consultar minha ex porque talvez fosse cedo demais (provavelmente era, já que eu ainda estava tentando processar a morte do meu companheirinho). O novo gato usaria os mesmos potes, sujaria a mesma caixa de areia e entraria numa rotina que tinha acabado de ser modificada.
A verdade é que eu sentia que precisava daquilo, precisava me forçar a ficar bem de algum modo. Não para substituir o George, claro, a vida não funciona assim e seria injusto com os dois esperar que um animal novo ocupasse exatamente o espaço deixado pelo outro.
Eu queria um bichinho que gostasse de mim, dormisse perto de mim, pedisse carinho e não fizesse ideia de que eu era uma pessoa tão falha de tantas maneiras. Queria voltar para uma casa onde alguém demonstrasse interesse no fato de eu ter chegado. Até que vi no Facebook um anúncio com vários gatinhos nascidos no dia 8 de fevereiro, meu aniversário, e aquilo foi o suficiente para eu fechar negócio. Aceitei a coincidência como um detalhe florido que a vida tinha colocado no meio da decisão, um critério de desempate emocional.
A gente pode saber tudo o que há para saber sobre um apartamento e ainda assim não ter certeza de que quer morar ali. Pode concluir racionalmente que adotar um gato ajudaria a retomar alguma forma de rotina e, ainda assim, se perder entre todas as possibilidades que os pobres gateiros responsáveis por resgatar animais têm para oferecer.
Os sinais costumam me ajudar nesse ponto em que já reuni as informações disponíveis, pensei até me exaurir e continuo sem conseguir produzir uma decisão. Essas coincidências não criam vontades que não existiam, apenas oferecem um remendo de permissão para seguir um desejo que ainda não consegui assumir completamente.
Devo confessar que também é uma maneira bastante conveniente de dividir a responsabilidade. Quando decido sozinho, preciso conviver indefinidamente com todas as outras escolhas que poderiam ter sido tomadas. Quando surge um sinal, por mais arbitrário que seja, dá para fingir por alguns instantes que alguma coisa participou da decisão comigo. Obviamente, pode dar errado.
Pouco mais de um mês antes de conhecer minha ex, postei uma foto do céu mais bonito que já vi na vida. A base era de um azul que transitava do claro para o escuro, as nuvens tinham um tom rosado com sombras roxas profundas e as casas apareciam completamente apagadas sob o firmamento. Meu Moto G2 claramente não tinha como captar a mesma beleza que meus olhos viam, mas a foto foi tirada no aniversário dela. Descobri (ou lembrei, não sei) isso mês passado, acho.
Quando estamos dispostos a encontrar sinais, praticamente qualquer coisa pode se tornar um, desde que haja esforço suficiente. Uma música tocando no momento certo, uma placa vista na rua, um número que se repete, um nome que aparece várias vezes no mesmo dia. Dá para justificar quase qualquer decisão com coincidências, inclusive aquelas que todo o resto indica que deveriam ser abandonadas.
Tenho alguma consciência disso porque, assim como faço com quase todas as minhas ações, também passo parte do tempo tentando desbancar sinais que eu notei no mundo. Perguntando se teria dado a mesma importância à coincidência caso ela apontasse para algo que eu não quero fazer, se estou percebendo uma vontade genuína ou apenas procurando uma justificativa para outra escolha arbitrária.
É a mesma lógica do site de sim ou não: muito mais para confirmar o que já quero do que para receber qualquer orientação externa.
Antes de chegar ao meu atual estado, um pouco mais zen, vários detalhes pareciam gritar para que eu tentasse voltar com minha ex. Era o emocional dando combustível a essa minha sensibilidade para encontrar padrões. Também não ajuda que ela tenha um dos nomes mais populares da nossa geração e que dez anos de convivência tornem possível encontrar saudade em praticamente qualquer aspecto mínimo da vida cotidiana.
Quando alguém ocupa um espaço tão grande na nossa vida durante tanto tempo, é meio que inevitável que continuem aparecendo em músicas, lugares, hábitos, palavras e pessoas que não têm nada a ver com ela. Quando o Sisko chegou, por exemplo, eu ouvia ele miar com a mesma “voz” do George, foi só depois de algumas semanas que minha cabeça conseguiu diferenciá-los.
Estatisticamente, coincidências acontecem o tempo inteiro. Não acho que usá-las dessa maneira seja só ignorar a razão para tornar a vida mais lúdica: sei que elas não provam nada, mas gosto de procurar significados. É um dos mecanismos que meu cérebro usa para lidar com a indiferença do universo e organizar a própria experiência.
Quando fui buscar o Sisko pela primeira vez, num sábado, ele se escondeu e a protetora falou para eu voltar outro dia (um sinal que decidi ignorar). Acatei e marquei de ir num dia que parecia dar certo… no aniversário da minha sogra. Obviamente, tudo o que poderia dar errado naquele dia aconteceu. Os planos, o trânsito, de repente eu, que originalmente não teria essa função, era o motorista responsável por levar a aniversariante para a própria comemoração.
E, é claro, ele rapidamente se apegou à minha ex. Ela passava mais tempo em casa e não havia participado do processo traumático de levá-lo para um ambiente novo. A nova rotina não ficou tão diferente daquela que existia antes de ele chegar. Continuei sem ser o humano principal de um pequeno animal, mas a presença dele fez toda a diferença nos meses e anos seguintes.
Com sua presença, a Sabrina passou a me aceitar como humano secundário e ativamente procurar carinho, às vezes até me escolhiam para dormir perto (acho que por ser mais quente). Ainda penso no George de vez em quando e sinto falta do tipo de companhia que a gente só tem quando é a pessoa favorita de um bichinho. O Sisko não ocupou essa função dele, mas me ajudou a atravessar essa ausência de uma maneira bem menos dolorida.
Agora estou reformando o apartamento 404 e, se tudo der certo, dentro de algum tempo vou organizar minhas coisas, cozinhar minhas comidas, talvez ter meu próprio gato e recuperar algum controle sobre a minha própria vida. Sempre aberto a enxergar números, datas, sons ou qualquer coincidência particularmente conveniente.

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