Questão de Tempo

Ironicamente, costumo evitar revisitar histórias de que ainda me lembro bem. Tenho muita clareza sobre estruturas narrativas enquanto as consumo e saber exatamente o que vai acontecer costuma me entediar na maioria das vezes. Em geral, prefiro fazer o esforço de conhecer alguma coisa nova, principalmente agora que o tempo disponível para entretenimento ficou tão reduzido.

Existem algumas exceções, coisas que revisito com uma intenção específica. Histórias que me guiam quando quero sentir algo que sozinho não estou conseguindo acessar ou se preciso retomar uma ideia que, por algum motivo, ainda não consegui absorver direito.

Questão de Tempo é um desses filmes. Devo assisti-lo pelo menos umas três vezes por ano (parece pouco, mas para mim é muito). Está longe de ser meu filme favorito, só que, desde o seu lançamento, ele cumpriu uma função muito específica na minha vida. Quando eu ainda não conseguia chorar com alguma recorrência pelas minhas próprias coisas, o filme servia como condutor para fazer esse trabalho por mim. Uma maneira relativamente segura de funcionar como um ser humano normal por duas horas, chorar pelos problemas de pessoas fictícias e, no processo, aliviar um pouco o que eu mesmo estava sentindo.

Só que a última vez que assisti foi muito esquisita.

Minha ex já tinha levado quase todo o recheio da casa. Tinham restado basicamente a cama, algumas caixas, uns poucos móveis, o projetor e eu. Coloquei o filme esperando o conforto de sempre, aquela sensação de rever amigos e saber exatamente o que aconteceria durante as próximas duas horas, num momento em que eu não tinha previsibilidade nenhuma sobre o restante da minha vida.

Só que eu não senti absolutamente nada: as imagens se moviam na parede e eu não conseguia estabelecer qualquer conexão emocional com elas. Reconhecia as cenas, lembrava os diálogos, sabia exatamente o que costumava sentir em cada momento, mas parecia anestesiado. O filme continuava sendo o mesmo. Eu é que tinha virado outra coisa naquele instante, alguma coisa que ainda era eu, embora não parecesse.

Uma das primeiras relações desenvolvidas no filme aborda uma ideia que sempre me pega quando falamos de viagem no tempo. No começo da história, Tim (Domhnall Gleeson), conhece Charlotte (Margot Robbie), uma amiga de sua irmã que passa as férias com a família dele. Eles convivem durante algumas semanas e, no último dia antes de ela ir embora, ele finalmente cria coragem para dizer que tem sentimentos por ela.

Charlotte responde que teria sido maravilhoso ouvir aquilo no começo das férias, quando ainda teriam tempo para fazer alguma coisa juntos, e que era quase um insulto ele sugerir aquilo quando ela já estava indo embora. Então Tim volta no tempo e, agora sabendo onde errou, decide dizer tudo no primeiro dia. Charlotte sorri e responde que eles deveriam conversar sobre aquilo no último, depois de terem vivido coisas legais juntos e ela conseguir decidir se gostaria de se relacionar com ele.

Essa sequência apresenta a ideia de que existem situações em que não há uma combinação correta de escolhas. Tim pode voltar, testar hipóteses e chegar a cada tentativa carregando todas as informações que reuniu na anterior, mas ainda depende do desejo dela. Tudo aquilo que depende dos outros continua dependendo dos outros.

Acho que a gente passa muito tempo se enganando a respeito disso. Imaginamos que é possível mudar alguém, despertar o desejo de alguém, encontrar a frase correta, o momento certo, a sequência exata de acontecimentos que fará uma pessoa sentir aquilo que gostaríamos que ela sentisse. É confortável pensar que o fracasso aconteceu apenas por causa da maneira como as coisas foram conduzidas, porque a maneira pode ser corrigida. Basta encontrar o erro e rodar tudo de novo.

Depois do término, minha cabeça entrou em debug.

Revisitei escolhas, piadas mal posicionadas, coisas que poderiam ter sido ditas, oportunidades perdidas e momentos em que percebi um problema, mas preferi deixá-lo para depois. Montei versões alternativas de conversas, imaginei o que teria acontecido se tivesse começado terapia antes, se tivesse falado mais, escutado melhor, prestado atenção nas coisas que ela tentava me dizer quando ainda existia espaço para isso.

Sendo bem sincero, existem duas ou três decisões específicas que ainda acho que poderiam ter mudado completamente o rumo da nossa relação. Consigo enxergar momentos em que alguma coisa poderia ter sido salva ao longo do caminho, e essa talvez seja uma das partes mais difíceis de esquecer.

Seria muito mais simples acreditar que o fim era completamente inevitável. Se nada pudesse ter sido feito, restaria aceitar a fatalidade da vida. Mas, quando você acredita (é unilateral, não tenho como afirmar com 100% de certeza, então não vou dizer que “sei”) que havia alguma saída e que não conseguiu usá-la a tempo, o passado parece continuar suspenso. Você achar que algo poderia ter acontecido de outra maneira e começa a tratar essa possibilidade como se ela ainda pudesse produzir algum resultado.

A adaptação de O Nevoeiro, do Stephen King, trabalha uma crueldade parecida. Na novela original, o protagonista termina dentro de um carro, numa cidade tomada por monstros e sem saber se existe alguma possibilidade de sair daquela situação. Talvez todos morram, talvez encontrem ajuda, a esperança é uma chama trêmula. A história simplesmente para ali, aquele tipo de final que continua te acompanha por um tempo depois que você termina de ler. Uma coisa meio Sopranos, sabe?

No filme, Frank Darabont (também responsável por À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade, ambos baseados em histórias de King) decide mudar completamente esse desfecho. O grupo de David (Thomas Jane), o protagonista, tem quatro balas para cinco pessoas e, convencido de que não há saída, ele mata os outros, incluindo o próprio filho, para poupá-los de uma morte muito pior. Depois sai do carro, pronto para morrer à mercê dos monstros.

Segundos mais tarde, o nevoeiro começa a se dissipar e ele vê um tanque de guerra. Comboios de sobreviventes abarrotados de crianças. Se tivesse esperado cinco minutos, todos estariam vivos. Ele não tinha como saber que poderia esperar aqueles cinco minutos, num cenário de exceção a urgência parece sempre máxima. Só que, daquele momento em diante, vai ter de viver sabendo que eles poderiam estar vivos. Enquanto o livro deixa David (e o leitor) preso(s) a um futuro duvidoso, o filme o obriga a continuar vivendo com a certeza de que havia outra saída.

Durante algum tempo, o fim da nossa relação funcionou meio assim na minha cabeça. Eu olhava para as decisões do passado carregando uma clareza que só o tempo e o afastamento poderiam trazer. E aí é que tá: hoje tenho informações que não tinha quando fiz aquelas escolhas. Quem cometeu os erros foram versões de nós com menos informações, menos ferramentas e menos capacidade de entender o que estava acontecendo. Com o que sabemos agora, talvez tivéssemos tomado decisões completamente diferentes. Talvez eu tivesse escolhido terminar antes, talvez ela tivesse escolhido nem começar, talvez estivéssemos juntos até hoje e muito melhores.

Não existe acesso à configuração psicológica que cada um tinha naquele momento, muito menos a possibilidade de testar o que aconteceria em cada cenário. Continuar julgando as escolhas do passado usando tudo o que aprendi desde então é bastante injusto. Algumas decisões foram muito ruins e suas consequências continuam existindo, mas não posso cobrar de quem eu era um conhecimento que só adquiri porque a relação acabou.

Também seria conveniente transformar tudo em responsabilidade exclusivamente minha. A relação era constituída por duas pessoas. Havia falhas de comunicação dos dois lados, falta de iniciativa dos dois lados e momentos em que nenhum de nós demonstrou interesse suficiente em mexer naquilo que nos mantinha estagnados. Posso reconhecer onde errei sem fingir que tinha acesso a um manual escrito apenas depois do fim. Posso aceitar que talvez esteja me tornando a pessoa que precisaria ter sido para continuarmos juntos e que o mesmo deve valer para ela.

Escrever sobre isso é uma forma de tentar parar de pensar nisso, ou pelo menos de tirar as ideias da cabeça e colocá-las em algum lugar com alguma elaboração. Emocionalmente, acho que já atravessei as partes mais violentas do processo. Ainda sinto saudade, ainda penso no que aconteceu, ainda tenho dias ruins, mas já não acordo todos os dias com a sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer com o mundo a qualquer momento.

Em algum nível, muitos pensamentos continuam lá. Eles só começaram a encontrar outras formas e outros lugares para existir na minha vida.

Além disso, estou numa situação bastante provisória, né? Já faz quase dois meses que moro na casa da minha irmã. Ela e meu cunhado foram muito receptivos e sou muito grato por tudo o que têm feito, mas continua não sendo a minha casa. Não consigo organizar completamente a rotina, decidir o que vou comer, receber alguém, organizar minhas coisas como gostaria ou simplesmente existir sem a consciência de que estou no espaço de outras pessoas.

Consigo trabalhar, sair, escrever, malhar e resolver várias coisas da minha vida. Não há nenhum impedimento para o básico, só que ainda é uma vida limitada por objetos, horários e decisões que não são meus. Muita coisa evoluiu desde que vim para cá, mas persiste a sensação de que estou esperando alguma coisa começar.

Pra ser sincero, parte do desconforto vem da impressão de que minha ex já está vivendo plenamente a vida dela enquanto eu permaneço nesse limbo. Talvez sinta falta de mim, talvez chore vez ou outra, talvez pense em alguma coisa que vivemos. A essa altura, sinceramente, eu não faço ideia de como ela está ou o que pensa. E, caso ela não ligue mais para mim, que bom para ela. Eu queria chegar nesse ponto também. Não necessariamente parar de me importar com tudo, mas parar de organizar minha vida mental ao redor disso.

Existe uma inveja meio feia aí, menos relacionada à vida dela ou a qualquer coisa específica que esteja fazendo e mais à aparente capacidade de continuar. Ainda sinto saudade da minha antiga vida, dela e de coisas muito menores que existiam ao redor da relação. Como disse, meu presente ainda parece estar esperando autorização para começar.

O pior é que, historicamente, eu sei que minha cabeça não funciona de outra forma. Demoro a digerir as coisas, reorganizá-las e permitir que deixem de ocupar tanto espaço. No mês que vem, vai fazer três anos que meu gato morreu e ainda penso nele pelo menos uma vez por semana. A dor não é a mesma, obviamente, mas a memória continua encontrando pequenas brechas e aparecendo em momentos que não espero.

Talvez os tratamentos de longo prazo mudem um pouco isso: o remédio que comecei a tomar, a terapia e o trabalho de lidar com algumas das travas que tenho podem fazer com que, daqui a algum tempo, eu atravesse essas coisas com mais facilidade. Mas também pode ser que eu nunca mude tanto assim.

Talvez minha versão final seja muito parecida com o que já sou hoje, com algumas melhorias, mais ferramentas e os mesmos problemas básicos usando roupas diferentes. A gente passa muito tempo esperando chegar a um ponto ideal para finalmente começar a viver, como se em algum momento surgisse uma versão suficientemente tratada, organizada e emocionalmente competente para nunca mais repetir os mesmos erros.

E esse ponto pode simplesmente não existir, é preciso imaginar Sísifo feliz.

Encontrar graça e felicidade na vida sem esperar por alguma iluminação divina que organize tudo de uma vez, sem depender de a pedra desaparecer ou de eu finalmente alcançar o shape perfeito para empurrá-la sem me sentir patético. Ela vai continuar existindo. Em alguns dias vai parecer mais pesada, em outros talvez eu consiga esquecer por alguns minutos que estou empurrando alguma coisa.

É uma lógica parecida com a própria “lição” de Questão de Tempo: entender a viagem no tempo (minha ruminação) até parar de precisar dela.

No fim do filme, Tim deixa de revisitar os dias que gostaria de mudar e começa a prestar mais atenção nas coisas que ignoraria por estar preocupado, cansado ou com pressa. Chega um momento em que não precisa mais retornar, porque começa a observar os dias enquanto eles acontecem. Não há necessidade de revisitar aquilo de que você não se arrepende de ter vivido.

Uma versão anterior de mim talvez continuasse fissurada naqueles dois ou três pontos que poderiam ter dado certo. Qual conversa ainda poderia acontecer, qual erro poderia ser corrigido tardiamente, que parte de mim precisaria estar sã para produzir o final desejado?

É o mesmo impulso que aparece na pergunta mais clássica sobre viagem no tempo: você voltaria para matar Hitler?

A fantasia parte da possibilidade de que um único gesto reorganizaria tudo o que aconteceu depois. Ignorando, claro, que existe uma alternativa lógica: num episódio de Além da Imaginação, uma viajante volta no tempo e mata Hitler quando ele ainda era bebê. A babá da família substitui a criança por um bebê cigano, e o episódio sugere que aquele menino cresce para se tornar exatamente o Hitler que conhecemos.

Os problemas também podem encontrar outro jeito de existir.

Talvez corrigir esse três pontos que hoje parecem divisores de águas apenas criasse problemas diferentes, até piores. Talvez realmente salvasse a relação. Talvez prolongasse por mais alguns anos algo que terminaria de qualquer maneira. Não tenho como saber, e montar novas hipóteses não muda a impossibilidade do momento em que vivo.

Na última vez em que assisti a Questão de Tempo, naquela casa quase vazia, também não consegui encontrar conforto nos cenários conhecidos. O filme que normalmente me ajudava a acessar alguma coisa passou por mim sem produzir reação. A vida continuou do mesmo jeito, comigo parado ou em movimento.

Ainda não sei quando vou para a minha casa, embora, se tudo der certo, deve acontecer em algumas semanas. Não sei quanto tempo vou demorar para parar de pensar pelo menos uma vez por dia em coisas que não posso controlar. Não sei quanto de mim vai mudar quando finalmente tiver uma rotina que pareça minha. Também não sei se os melhores dias da minha vida já passaram, se estão acontecendo agora sem que eu perceba ou se ainda virão. Talvez daqui para frente tudo piore, sei lá. Essa também é uma possibilidade real, por mais que não agrade pessoas mais otimistas.

Acho que comecei a fazer as pazes com o fato de que só vou compreender alguns momentos de vida depois de ter vivido tempo suficiente para olhar para eles de longe. Durante meses, tratei o passado como um problema que ainda podia ser resolvido, mas pensar nele como se ainda estivesse em aberto não produz nada de bom para mim.

Daqui para frente, o que consigo fazer é prestar um pouco mais de atenção na vida enquanto ela acontece, mesmo que ainda seja uma vida provisória, limitada e dentro da casa de outras pessoas. Os dias que um dia vou querer revisitar provavelmente não vão se anunciar como importantes enquanto acontecem.

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