Antes de pedir ajuda, é preciso inventar o universo

Tem uma frase do Carl Sagan que meio que virou um meme. Em Cosmos, ele diz que, se você quiser fazer uma torta de maçã do zero (“from scratch”, no original), primeiro precisa inventar o universo.

Obviamente, ele está dizendo que nada é criado do zero de verdade. Tudo existe em um contexto, em um sistema que precede o objeto em si. Antes da torta, havia a maçã. Antes da maçã, a árvore. Antes da árvore, bilhões de anos de processos que permitiram que uma macieira (e a pessoa que vai comer a torta) existisse. É muito comum olharmos só para o resultado final e esquecer de tudo o que nos conduziu para esse momento específico, de saborear a torta.

Pessoalmente, eu não sou lá muito chegado a torta de maçã, mas acabei pensando nisso porque acho que acontece exatamente a mesma coisa com habilidades emocionais.

Depois do fim de um relacionamento de dez anos, uma das partes mais difíceis do processo de tentar me regular de novo é o quanto isso tem sido solitário. Não porque eu não tenha ninguém na minha vida. Pelo contrário: várias pessoas vieram falar comigo, disseram que estavam disponíveis, que eu podia chamar quando precisasse, que estavam ali para ouvir. E eu acredito nelas. O problema é que eu simplesmente não sei fazer isso.

Isso é algo muito comum da socialização masculina. A bell hooks escreve, em A Vontade de Mudar, que homens costumam ser educados para performar autonomia, competência e controle, enquanto mulheres acabam sendo socializadas para sustentar o trabalho emocional das relações. Mãe, irmã, companheira… quase sempre existe uma mulher designada para fazer sentido do analfabetismo emocional dos homens ao seu redor. Enquanto elas aprendiam, muito pela própria sobrevivência, a lidar com essas ferramentas, nós fomos ensinados a ignorar uma questão básica da vida humana.

Parece aquele TikTok famoso em que um homem tenta guardar blocos geométricos em um balde, encaixando tudo nas silhuetas erradas enquanto uma mulher acompanha, frustrada, do lado. No fim, tudo cabe. Está completamente errado, mas funciona o suficiente para continuar sendo feito.

Acho que a gente aprende emoções mais ou menos assim: vai empurrando tudo para dentro de onde pareça caber. Enquanto a vida dá certo, ninguém parece se importar em como as peças foram encaixadas. Aí, de repente, alguma coisa quebra e somos forçados a usar habilidades que teoricamente qualquer pessoa deveria ter.

Quando meu gato ficou doente, há alguns anos, tentamos seguir todas as orientações da veterinária. Ração renal, mais água, comida úmida… Mas ele simplesmente não queria. Se não colocássemos a ração que ele aprendeu a gostar ao longo da vida, a vasilha ficava cheia. De fora, era muito fácil enxergar que aquilo provavelmente faria mal para ele no longo prazo. Para ele, porém, aquela era simplesmente a única comida que fazia sentido comer. Alguns anos depois, o problema voltou mais forte e acabou levando ele de vez.

Às vezes eu me sinto assim. Teoricamente, eu sei tudo o que preciso fazer para ficar bem. Sei que conversar com alguém ajudaria, que a vulnerabilidade é justamente o remédio de que preciso para que meus próximos relacionamentos não fracassem pelos mesmos motivos- melhor: para que eu pare de fracassar comigo do mesmo jeito. Mas saber disso racionalmente não faz essas coisas passarem a fazer sentido emocionalmente.

Acho que todos os terapeutas que já tive acabaram dizendo alguma versão da mesma coisa, sobre eu não me permitir sentir, usar o intelecto como filtro. No fundo, eu só quero continuar com a ração que é gostosa. A que me manteve vivo até aqui. Mesmo que ela já não seja suficiente para me trazer qualidade de vida daqui para frente.

Não é como se eu nunca tivesse pedido ajuda na vida, mas tem uma diferença enorme entre saber, racionalmente, que você pode procurar alguém e conseguir transformar isso em uma ação instintiva, natural. A sensação é de que existe uma lacuna severa de habilidades que eu nunca desenvolvi.

Sim, eu sei que parece muito algo auto infligido (até porque é), mas meio que tudo o que é psicológico é assim, né? E daí para cair na armadilha de tratar vulnerabilidade como uma escolha é um pulo. “Conversa com alguém, fala o que tá sentindo.” Essa frase, por si só, pressupõe que um universo inteiro já exista: que eu consigo abordar alguém nesse sentido, que eu entendo o que estou sentindo, que eu consigo elaborar isso de forma que outra pessoa entenda, que eu consigo me colocar na posição ridícula de sentir na frente de outra pessoa… Tem até outros passos, mas acho que deu para entender como é difícil chegar ao ponto de conseguir alcançar isso.

Além de tudo isso, é preciso entender os próprios sentimentos como válidos e acreditar que, por se abrir, a outra pessoa não vai pensar menos de você. Todas aquelas coisas cruas, erradas, mal elaboradas e colocadas da forma que você conseguiu vão ser ouvidas e você não vai ser recebido com risos ou com a ideia de que é um monstro por pensar da forma que pensa. E acho que existe uma camada ainda mais anterior a essas. Em algum lugar da minha cabeça existe uma espécie de meritocracia do afeto. Como se carinho e acolhimento fossem recursos escassos que deveriam ser direcionados para pessoas que teoricamente “merecem mais” do que eu.

O pior é que eu (quase) nunca penso isso das outras pessoas.

Eu adoro ajudar. Só que gosto de oferecer ajuda do jeito que homens costumam fazer: trazendo soluções, estratégias, caminhos… Resolver problemas é muito mais confortável do que simplesmente compartilhar sentimentos. Talvez uma parte de mim imagine que é isso que as pessoas esperam de mim, respostas (e até por isso eu tenha tanta dificuldade de acreditar que alguém toparia apenas ouvir o que estou sentindo).

Isso porque sempre pensei que não era tão ruim quanto os outros homens. O que, em retrospecto, talvez fosse só uma forma de confirmar o argumento dela: eu sou tão ruim quanto os outros homens. A cegueira de viver num ponto confortável da vida, no qual eu raramente lidava com o que sentia (em boa medida, o que sabotou meu relacionamento), me ajudou a ter a ilusão de que eu conseguiria quebrar esse ciclo, de que conseguiria lidar com isso quase tão bem quanto uma mulher.

Claramente eu estava errado, senão nem estaria escrevendo esse texto. Eu sou emocionalmente constipado, travado, não sei lidar com o que sinto e nem falar com os outros sobre isso pessoalmente. Não saberia chorar na frente de alguém sem estar em uma sala escura de cinema na qual as minhas fungadas possam se misturar às de dezenas de outras pessoas. Aliás, eu fiquei uns bons anos sem chorar pela minha própria vida. À exceção de quando meu gato começou a ficar doente e um período depois de ele morrer, eu não tenho memórias de conseguir usar esse mecanismo básico de liberação do corpo humano.

Isso mudou recentemente.

Eu devo ter tido semanas a fio em que chorava todos os dias, em maior ou menor intensidade. No metrô, andando na rua, no banho, dirigindo… qualquer oportunidade estava sendo plenamente usada para botar tudo para fora. Até que eu fiquei alguns dias sem nenhum episódio disso. Sem chorar. Achei que fosse um sinal de melhora. Mas, inevitavelmente, voltei para o mesmo ponto.

Em muitos aspectos, isso é um fracasso. Muito porque inevitavelmente me leva a querer falar com minha ex, agir como uma das piores versões possíveis de mim mesmo e magoar alguém que está fazendo a mesma coisa que eu: tentar viver a vida nos próprios termos. Mas, tirando isso, até que fico feliz com essa exploração bagunçada do que eu sinto.

Assim como a gente aprendia a mexer com programas de computador na marra no começo dos anos 2000, eu meio que estou tateando no escuro aqui. Apesar da minha vontade persistente de só dar continuidade a atividades nas quais eu sou bom de primeira, eu falho todas as vezes. Obviamente a terapia está ajudando em algum sentido e há ferramentas que estão me apresentando e são muito melhores do que várias das coisas que eu faço, mas é a primeira vez em muito tempo que sinto que isso está levando a algum lugar.

Partir do lugar de estar errado, estar mal e pedir ajuda para melhorar deve ser uma das coisas mais difíceis que eu já vivi. Entender que vou fracassar em tudo o que me propuser até aprender a fazer direito é uma tarefa assustadora.

É como uma grande emergência financeira sem nunca ter construído uma reserva. As amizades bem cultivadas, os laços que permitiriam que eu chorasse nos braços de uma pessoa amiga (sem que isso envolva me embriagar para além do aceitável), não foram criadas. O problema das reservas é que elas só podem ser construídas antes da emergência. Depois que ela acontece, tudo vira improviso. Vínculos humanos meio que são assim, né? A gente percebe que precisava ter desenvolvido eles justamente quando já é tarde para tê-los à mão.

E daqui pra frente vai ser o meu gato morrendo sem eu ter dinheiro para tentar alongar um tratamento, tudo de novo.

E o gato agora sou eu.

Eu não sei navegar esse mundo. Não entendo por que as outras pessoas gostariam de mim ou teriam qualquer interesse em me ajudar. Mas vou me esforçar para abrir esses caminhos. Vou alimentar e fortalecer as partes de mim que são necessárias para que outras pessoas possam ter isso em suas vidas e, se tudo der certo, descobrir como essas ferramentas podem me ajudar também.

Talvez seja isso que eu tenha entendido tarde demais: apesar da vida, apesar de todos os pesares, apesar de mim mesmo, pedir ajuda precisa se tornar simples um dia. Mas, antes disso, existe toda uma gama de experiências, vínculos, tentativas, fracassos e pequenos aprendizados que também precisam acontecer.

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