Um dos primeiros filmes que assistimos no cinema depois de assumir oficialmente o namoro foi Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Deve ter sido, também, uma das primeiras vezes que ela me viu (ouviu, no caso) chorar. Lembro de tentar escrever um texto para o meu canal de YouTube que nunca saiu do papel sobre esse filme, mas, como a maioria das coisas que tentei fazer nesse sentido, nunca foi a lugar algum. Apesar da minha eterna dificuldade em entender e colocar em palavras o que sinto, foi muito forte ver algo tão emocionalmente complexo num filme: a ideia de uma criança sendo confrontada pelo sentimento extremamente adulto de entender que, às vezes, é melhor que as coisas acabem.
Em certo momento, Connor (Lewis MacDougall), o protagonista da história, é forçado pelo monstro (Liam Neeson) a admitir que parte dele desejava que a mãe morresse logo. O amor óbvio entre mãe e filho ainda existia, mas continuar assistindo ao sofrimento diário dela era muito pior do que não tê-la mais em sua vida. Uma cena muito forte, obrigar uma criança (e a gente, por tabela), a aceitar que dois sentimentos aparentemente incompatíveis possam ser verdade ao mesmo tempo. Era o que o menino precisava para seguir em frente.
Nos últimos anos eu vivi algo muito parecido, apesar de à época não saber exatamente como posicionar esse sentimento dentro de mim.
É claro que é muito triste quando as pessoas terminam, o momento em que as palavras finalmente selam o acordo de que dali para frente a gente volta a ser duas pessoas, separadas uma da outra. Mas, apesar de embalada a mais lágrimas e muco do que eu devo ter produzido nos cinco anos antes disso, a tristeza da conversa em si foi inicialmente menor do que alguns rompantes que eu já tinha tido sozinho, enquanto ninguém via. Vez ou outra eu me pegava pensando nesse nosso fim inevitável, que talvez fosse melhor terminar logo, não só porque os problemas me faziam sofrer, mas porque eu tinha noção do estrago que fazia na vida dela e pensava no quanto tudo seria melhor sem mim.
Durante muito tempo, entendi isso como culpa mas hoje não me parece que seja (totalmente) o caso. A maioria dos términos começa muito antes da última conversa em que as pessoas finalmente admitem que acabou, o fim se alimenta de todas as vezes em que paramos de pensar em como resolver as coisas e passamos a sentir o peso de continuar fazendo a escolha de continuar. O amor é uma ação, afinal.
De alguma forma, nossa relação era uma doença terminal e estávamos em cuidados paliativos. Ainda existia amor, alguma vontade e até mesmo esforço, mas tudo isso foi lentamente sendo soterrado pela montanha de coisas que nenhum dos dois conseguia dizer em voz alta. Essas eram reservadas a conversas pontuais nas quais eu a via chorar, me sentia muito mal por não conseguir chorar, falávamos sobre o problema da vez e rapidamente os problemas de sempre se tornavam pauta. Depois, fazíamos muito pouco para que algo mudasse de maneira concreta, a situação melhorava por alguns dias e voltava exatamente para o mesmo lugar depois de um tempo.
Enquanto os sintomas aumentavam e tentávamos evitar que piorassem, a doença evoluía ao ponto de se tornar incurável. Aprendemos quais assuntos evitar, quais concessões fazer ou o que era melhor deixar para lá porque estávamos cansados demais para lidar com aquilo naquele momento. Era uma forma de cuidado, claro, mas boa parte da nossa energia deixou de ser usada para construir a relação e passou a ser usada para administrar sintomas.
Um dia perguntei se ela me acompanharia à cerimônia de batizado da capoeira. Não sabia se ia ganhar alguma graduação, achava que não, mas, como envolveria acordar de manhã cedo, ela preferiu não ir. Ganhei a graduação, dezesseis anos depois de ter pegado a primeira, comemorei com o pessoal do grupo e, quando voltei para casa, comprei uma pizza para comer com ela. Ela percebeu que eu estava de corda nova e perguntou se eu tinha ficado chateado. Menti que não, que estava tudo bem e fugi do assunto para falarmos sobre amenidades.
Talvez por isso aquelas conversas que precederam o término tenham sido tão estranhas. Quando pensei em iniciá-las, a ideia era que fosse uma última tentativa desesperada de cura. Eu ainda queria acreditar que talvez fôssemos encontrar algum tratamento que não tínhamos tentado, alguma nova cura experimental milagrosa daquelas que aparecem em seriados médicos e resolvem o caso raro da semana, qualquer coisa que provasse que ainda havia uma forma de nós dois não morrermos. Mas, conforme as horas foram passando, foi ficando cada vez mais claro que realmente era algo sem solução.
Passei anos ouvindo When We Were Young, da Adele, imaginando como seria quando isso inevitavelmente acontecesse. Ensaiando mentalmente o fim de uma relação que ainda existia. Chorava dirigindo de volta do trabalho, a caminho de uma consulta, correndo no parque, e depois chegava em casa e a beijava, feliz por ainda ter mais algum tempo, que eu não sabia quanto seria, de “nós”. Isso é algo que nunca contei para ela, mas acho que talvez ela desconfiasse de alguma coisa, já que geralmente pedia que pulasse a música.
Assim como muitas coisas que eu decidia de maneira arbitrária (quase tudo na minha vida), achava que fazer isso me prepararia para esse momento. Como se sofrer por antecedência com a ideia do fim fosse uma forma eficiente de amortecer a queda. Não foi, claro. Ou talvez até tenha funcionado inicialmente, por algumas semanas, o que é meio que a mesma coisa que não funcionar.
É como o 11º Doutor disse arrancando a última página do livro no episódio em que se despede dos Pond, “eu odeio finais“.
Os primeiros dias depois da conversa final foram horríveis, silenciosos. Ela ainda morava na mesma casa, ainda dormíamos na mesma cama, ainda existiam sinais da nossa rotina espalhados pela casa. Só que agora aquele travesseiro enorme que ela usava de apoio entre as pernas passou a dormir entre nós. Uma barreira perfeitamente transponível transformada em lápide da nossa relação, que agora não tinha mais beijos e no máximo algo que poderia ser descrito como uma amizade residual.
Foi nesse ponto que prometi para mim mesmo que não viveria esse momento como no meu término anterior, já que da outra vez tinha ficado meses incapaz de sequer conversar com alguém. Então fiz o que qualquer pessoa com faculdades mentais em dia faria: baixei todos os aplicativos de relacionamento. Todos eles, simultaneamente.
Conversei com dezenas de pessoas, saí com duas, não beijei nenhuma. Isso aconteceu no intervalo estranho entre ela ainda estar em casa e eu finalmente sair. A verdade é que o meu interesse real era meio que provar para mim mesmo que não ficaria tão por baixo quanto da última vez, perder o jogo imaginário de quem fica melhor primeiro. Dessa vez eu conseguiria funcionar como uma pessoa mais rápido, era só criar o movimento inicial e continuar.
Durante muito tempo, ela dizia que às vezes não conseguia distinguir se eu realmente queria transar com ela ou se eu simplesmente queria transar e calhava de ela estar ali, disponível. Sempre respondi o óbvio (eu queria ela), porque era óbvio pra mim. Mas tem uma diferença enorme entre acreditar em alguma coisa enquanto ela existe só no mundo das ideias, não ter a comparação imediata com uma experiência real, e saber de verdade.
Tive a oportunidade de botar à prova após uma conversa estranhíssima com uma conhecida que topou uma relação exclusivamente sexual, sem vínculo afetivo (posteriormente descobri que nossas percepções sobre o que isso significava eram bastante diferentes). Não deu muito certo, claro. Apesar de, teoricamente, ser o que eu achava que queria até então (estar com alguém que me desejava fisicamente, queria transar comigo quantas vezes eu conseguisse e toda a cartilha da fantasia masculina). Só que foi muito ruim.
Além de estar há tanto tempo sem transar que parecia que nada funcionava como deveria, o fôlego que eu tinha ganhado nos últimos meses, antes de entrar nesse abismo emocional, foi embora. O que deveria ser um momento de prazer parecia uma obrigação e ficou ainda mais claro que, no fundo, eu não queria estar apenas transando, eu queria estar transando com ela.
Tive que encerrar o contato com a mulher com quem estava me relacionando. Primeiro porque ela começou a cobrar muito mais interações do que eu estava disposto a dar, mas também porque ficaria insustentável a longo prazo. Confirmei o que tinha falado tantas vezes antes: trocaria tranquilamente duas ou três transas seguidas por uma só com ela.
Acho que foi aí que caiu a ficha. Eu já tinha chorado praticamente todos os dias desde o ponto final, mas foi nesse dia que percebi que o luto finalmente tinha encontrado lugar dentro da minha cabeça, com o nosso problema central sendo iluminado por todos os lados. Primeiro a relação morreu, depois ela foi embora, depois eu comecei a morrer também.
Essa é a parte mais estranha do luto de uma relação, porque na morte existe clareza. Existe um fim intransponível que é perfeitamente identificável por todo mundo que vive. A pessoa morreu, o mundo reconhece aquela ausência, existem rituais em todas as culturas humanas para que você viva aquele momento de forma adequada. No término, não. Você precisa agir como se uma pessoa tivesse morrido sabendo que ela está a quinze minutos de distância, que talvez até mesmo passe na frente do prédio dela depois de deixar um colega da capoeira em casa porque não passar gastaria gasolina demais.
Ela continua indo trabalhar, encontrando amigos, fazendo planos, conhecendo gente, existindo… só que fora do lugar que ocupava na sua vida. Eu continuo tentando fazer uma série de coisas que até então eram normais, mas que agora são pontuadas por uma estranheza de cemitério. É um tipo de luto que ninguém sabe muito bem o que fazer com ele, nem quem está vendo de fora, nem quem está vivendo.
Quando pequeno, assisti muitas vezes a Lembranças de Outra Vida, aquele filme do cara que morre e reencarna como cachorro. Durante muito tempo, como dormi no meio do filme e tinha escola no outro dia, tive certeza absoluta de que era uma história relativamente sombria, na qual o protagonista voltava à vida para salvar sua família de um ex-sócio invejoso que tinha decidido namorar a viúva. Só descobri anos depois, na Sessão da Tarde, que eu nunca tinha visto o final: o sócio, na verdade, era um grande amigo e o trauma de morrer tinha distorcido as memórias de Thomas/Fluke (Matthew Modine, o “papa” da 11 em Stranger Things). No fim, ele salva o amigo (Eric Stoltz) e deixa sua família para trás, porque percebe que vai ser o melhor para eles.
O término, estranhamente, pareceu com essas duas experiências. Como não tocamos mais no assunto depois de terminar e praticamente cortamos contato depois que ela se mudou, na minha cabeça as coisas ficaram sem um final de verdade. Talvez tenha sido uma decisão acertada da parte dela e se eu tivesse conseguido aderir melhor à ideia estaria mais tranquilo, mas infelizmente eu sou compulsivo.
Passei a acompanhar pelas redes sociais o que ela dizia, ver se ela estava bem, como estavam os nossos gatos, se sinalizava ao menos um pouco da saudade (que em mim era tão latente), se já estava com alguém… talvez aguardando que uma resposta positiva me tirasse do sério e me desse forças pra sair desse lugar. Depois de duas conversas póstumas com ela, cheguei à mesma conclusão do cachorro: não há mais espaço para mim aqui.
É muito difícil não sucumbir à vontade de querer saber tudo sobre ela, uma pessoa à qual eu tive acesso (quase) total nos quase dez anos em que estivemos juntos. A compulsão de tentar encontrar migalhas para montar uma história que satisfaça a saudade da minha pessoa preferida, a curiosidade mórbida de saber detalhes que ela provavelmente não compartilharia a essa altura. É uma coisa quase religiosa, né? Aceitar que uma pessoa que morreu ainda está viva.
E que eu também morri.
Ou, pelo menos, morreu a versão de mim que existia naquela relação, naquele momento no tempo. Bem como todas as outras pessoas que poderíamos ter sido, separadamente e juntos. Morreram os planos que adiávamos, as viagens que ainda viriam, todas as formas como a minha cabeça interagiria com a dela e criaria coisas que acharíamos graça entre nós, mas jamais diríamos em público. Morreu a primeira pessoa para quem eu contaria uma notícia boa, a que entenderia exatamente o que eu queria dizer. É muita gente morrendo ao mesmo tempo.
Uma das características que fazem Doctor Who poder continuar enquanto a BBC quiser é que o papel principal sempre pode ter um novo intérprete. Anos depois daquele Doutor que falei lá em cima, sua encarnação seguinte revisita o raciocínio, mostrando alguma evolução, ao dizer que “tudo acaba e isso é sempre triste, mas tudo também começa de novo e isso é sempre feliz”. Não sei até que ponto eu acredito nessa segunda parte, mas é um bom sentimento.
Acho que eu ainda estou meio confuso, como naqueles episódios em que ele acabou de regenerar e precisa entender quem é. Eu não sei muito bem quais partes de mim existem porque são minhas e quais passaram a existir por terem moldadas por dez anos de convivência com outra pessoa. Não sei quais hábitos vão ficar, quais vão sumir, quais eu vou tentar manter por apego e quais vão desaparecer sem eu perceber.
Eu sou uma pessoa que depende muito dos outros para validação (já está sendo tratado). Minha noção de identidade, de felicidade e reconhecimento é completamente pautada no outro. Ao ponto de que nunca senti que minhas conquistas valessem muito por si só. De alguma forma quebrada, sempre parece que eu não fiz mais do que minha obrigação. Eu jamais aprendi a cheirar as flores, saborear o caminho, aproveitar a jornada e todas essas expressões que eu entendo racionalmente mas que parecem ter sido feitas para pessoas com um funcionamento interno muito mais certinho que o meu.
O mais perto de satisfação que eu sentia era ter ela celebrando comigo. Poder ver o sorriso dela, sempre tão genuíno, comemorando aquilo que eu era incapaz de sentir por mim mesmo. Tudo isso morreu com o fim e talvez isso seja bom, deixar de ter alguém feliz por mim, parar de terceirizar para ela uma parte tão grande da minha vida que nunca aprendi a sustentar sozinho.
É uma ausência muito difícil de explicar, justamente porque ela continua viva. Continua tendo dias bons e ruins, continua fazendo planos, provavelmente continua sendo, para outras pessoas, exatamente a pessoa que sempre foi. Só deixou de ocupar aquele papel na minha vida. E o problema é que eu continuo produzindo pensamentos, medos, vitórias e coisas engraçadas todos os dias, só que agora eles ficam meio sem destino, circulando dentro de mim.
E é algo difícil de sustentar: não deixar de sentir, nem esquecer, nem fingir que tudo aquilo não aconteceu enquanto as possibilidades da vida continuam aparecendo… aceitar a loucura de viver num mundo novo sem a minha melhor amiga.

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